sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Domingo I da Quaresma

LEITURA I  Deut 26, 4-10

A profissão de fé do povo eleito

Leitura do Livro do Deuteronómio
Moisés falou ao povo, dizendo:
«O sacerdote receberá da tua mão
as primícias dos frutos da terra
e colocá-las-á diante do altar do Senhor, teu Deus.
E diante do Senhor teu Deus, dirás as seguintes palavras:
‘Meu pai era um arameu errante,
que desceu ao Egipto com poucas pessoas,
e aí viveu como estrangeiro,
até se tornar uma nação grande, forte e numerosa.
Mas os Egípcios maltrataram-nos, oprimiram-nos
e sujeitaram-nos a dura escravidão.
Então invocámos o Senhor, Deus dos nossos pais,
e o Senhor ouviu a nossa voz,
viu a nossa miséria, o nosso sofrimento
e a opressão que nos dominava.
O Senhor fez-nos sair do Egipto
com mão poderosa e braço estendido,
espalhando um grande terror e realizando sinais e prodígios.
Conduziu-nos a este lugar e deu-nos esta terra,
uma terra onde corre leite e mel.
E agora venho trazer-Vos as primícias dos frutos da terra
que me destes, Senhor’.
Então colocarás diante do Senhor, teu Deus,
as primícias dos frutos da terra
e te prostrarás diante do Senhor, teu Deus».
Palavra do Senhor.

LEITURA II Rom 10, 8-13

Profissão de fé dos que crêem em Cristo

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Que diz a Escritura?
«A palavra está perto de ti,
na tua boca e no teu coração».
Esta é a palavra da fé que nós pregamos.
Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor
e se acreditares no teu coração
que Deus O ressuscitou dos mortos,
serás salvo.
e com a boca se professa a fé para alcançar a salvação.
Na verdade, a Escritura diz:
«Todo aquele que acreditar no Senhor
não será confundido».
Não há diferença entre judeu e grego:
todos têm o mesmo Senhor,
rico para com todos os que O invocam.
Portanto, todo aquele que invocar o nome do Senhor
será salvo.
Palavra do Senhor.

EVANGELHO Lc 4, 1-13


«Esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
Jesus, cheio do Espírito Santo,
retirou-Se das margens do Jordão.
Durante quarenta dias,
esteve no deserto, conduzido pelo Espírito,
e foi tentado pelo Diabo.
Nesses dias não comeu nada
e, passado esse tempo, sentiu fome.
O Diabo disse-lhe:
«Se és Filho de Deus,
manda a esta pedra que se transforme em pão».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito:
‘Nem só de pão vive o homem’».
O Diabo levou-O a um lugar alto
e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra
e disse-Lhe:
«Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos,
porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser.
Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito:
‘Ao Senhor teu Deus adorarás,
só a Ele prestarás culto’».
Então o Diabo levou-O a Jerusalém,
colocou-O sobre o pináculo do templo
e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus,
atira-Te daqui abaixo,
porque está escrito:
‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito,
para que Te guardem’;
e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão,
para que não tropeces em alguma pedra’».
Jesus respondeu-lhe: «Está mandado:
‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
Então o Diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação,
retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.
Palavra da salvação.


Homilia Pe. Antoine Coelho, LC

Domingo I da Quaresma


A missa do próximo domingo apresenta-nos as tentações do Senhor, segundo a versão de São Lucas. Como sabemos, tiveram lugar durante os quarenta dias que o Senhor passou no deserto, tempo durante o qual não comeu nada. São Lucas menciona que “foi conduzido até ao deserto pelo Espírito, e foi tentado pelo Diabo”. O Espírito e o Diabo, são por assim dizer, os dois extremos deste episódio.

Aqui, com efeito, opõem-se o Espírito de Deus e o espírito do mal. Entre eles, o homem deve fazer a sua escolha. Cristo, como todo homem, teve de a fazer, embora, por ser Deus, não podia deixar de optar pelo bem. A condição necessária para que esta escolha seja realmente livre e que, por isso, se possa orientar para o bem é o jejum. Entenda-se jejum em sentido amplo, como o saber prescindir do não essencial. Cada apego às coisas deste mundo é como uma corda pela qual o espírito do mal pode “puxar” os corações, abalá-los e roubar-lhes a paz. Sejamos convencidos disso: onde há falta de paz, existe um apego. Se habitualmente nos faltar a paz, então, com certeza, é porque o nosso coração está muito apegado.

Claro, podemos culpabilizar os outros pela nossa falta de paz: se tal pessoa não tivesse sido mal-educada, caluniadora, se não tivesse sido injusta comigo, teria guardado a paz…O simples facto de que fazemos depender a paz dos outros, mostra que não entendemos ainda bem o que ela é: um dom de Deus. Cristo foi submetido às mais atrozes provas. Chegou a angustiar-se grandemente no Jardim das Oliveiras, suando sangue, mas na oração encontrou paz. Na cruz, perguntou ao seu Pai porquê o tinha abandonado, mas mantendo-se em oração, soube suspirar finalmente: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito”.

No presente relato evangélico, Cristo não se limita a passar uns dias no deserto. Permaneceu aí 40 dias. Tal duração significa, no mundo da Bíblia, a plenitude: Cristo é plenamente desapegado das coisas. Isso significa que nós também, em quanto seguidores de Cristo, devemos tender a uma plena libertação do mundo. Não bastam meias vitórias. A nossa vida é feita delas, é verdade, mas quem se contenta com elas já perdeu. Devemos temer querer ser simplesmente boas pessoas. O mundo está já cheio de boas pessoas…Quem vive mirando a vitória total, confiado no poder de Deus e não nas suas forças, está realmente no bom caminho. Devemos buscar a santidade. Muitas objecções podem vir imediatamente à nossa mente ante tal meta. “Boas” razões todas elas, sensatas. Mas, com isso, mostramos somente não haver entendido ainda o que é a santidade. Com efeito, quem duvida que pode ser santo, não sabe o que é a santidade e deve pedir insistentemente a Deus que lhe permita entrar na sua lógica e deixar os caminhos humanos. A santidade é um dom de Deus (como a paz!) que receberá sempre quem a busque sinceramente.

“Mas não sou ainda desapegado”, dirá alguém. “Não sou capaz de buscar sinceramente a santidade”. Pois então, que peça a Deus a experiência do deserto. Ou seja, que peça ao Espírito Santo a graça de ser levado à compreensão do que valem as coisas deste mundo, quando não são amadas em Deus. Sim, o que o coração busca sem Deus, é deserto, há-de o condenar à solidão, vai fechá-lo sobre si mesmo e impedir uma límpida e espontânea comunicação com os outros. Mas este deserto sabe mascarar-se muito bem, vestir roupas de carnaval, fingir sorrisos…O Espírito Santo é capaz de nos mostrar a face interior, desértica, deste teatro de alegrias superficiais. Aí, na lucidez que se produz, nasce o mais profundo desejo do homem: o de Deus, o da santidade.

Mas no deserto, não somente se descobre a vanidade do mundo, como também se percebe a verdadeira natureza do mal. Como Cristo também teve de se enfrentar às tentações. As tentações de Cristo são as de toda a humanidade.

Em primeiro lugar, o Diabo incita-o a transformar as pedras em pães. Não é Cristo o Filho de Deus? Porque teria então que padecer fome? Trata-se da tentação do materialismo, de fechar o horizonte humano dentro do nosso mundo, sem elevar os olhos até Deus. Está particularmente presente hoje em dia. Não somente porque muitos homens parecem esperar unicamente a felicidade dos bens terrenos, mas também porque se desenvolvem formas de espiritualidade centradas sobre as energias deste mundo. Energias cegas, materiais, elas também, e por isso, incapazes de resolver os problemas mais profundos que são de índole espiritual.

Cristo responde da melhor forma possível às sugestões do adversário: “nem só de pão vive o homem”. Sim, o homem vive sobretudo de Deus. Eis porque Deus permitiu, ao longo do tempos, que santos vivessem sem alimentar-se de outra coisa que a Eucaristia, o Pão do Céu. Para nos recordar quem é o dador da vida e em que consiste a verdadeira vida.

A segunda tentação é mais própria do espírito. Não se dirige à fome meramente corporal, mas à sede espiritual de poder e de glória. O coração do homem deseja ardentemente Deus, mas este movimento, como fruto do pecado, pode ser adulterado. Então, o desejo de Deus degrada-se e transforma-se em desejo de ser deus, ao menos aos olhos dos homens. Mas tal meta é um grande engano, porque equivale, no fundo, a ser escravizado pelas forças do mal. Por isso, como condição da possessão de todos os reinos, Satanás pede ao Senhor que se prostre diante dele. Mas, de facto, o próprio Satanás, aparentemente tão livre e potente, senhor e príncipe, não passa de ser um escravo de si mesmo, incapaz de encontrar esta profunda união consigo mesmo, que chamamos paz. Quem abandona Deus, torna-se o pior tirano para si mesmo.

“Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto”, responde-lhe o Senhor desta vez. Sim, ser livre é adorar o Senhor. É próprio do homem livre, de facto, não escravizar ninguém, não querer exercer o próprio jugo sobre os demais, tal como Deus, que, sendo Ele quem é, serve as suas criaturas.

“Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: Ele dará ordens aos seus anjos a teu respeito, para que te guardem”. Trata-se do último ataque diabólico. Nos Evangelhos de São Mateus e São Marcos, figura como a segunda tentação. Lucas prefere colocá-la no fim, o que sugere que aqui atingimos o ponto culminante da degradação. Pessoalmente estou de acordo com Lucas. Vejo aqui a suprema tentação de usar de Deus. Não se trata somente de escravizar os homens, como na segunda, mas de submeter Deus aos próprios caprichos. Encontramos o núcleo mais pérfido do pecado. A isso tende, no fim de contas, todo pecado, por mais pequeno que seja e ainda que seja de forma inconsciente: subir ao trono de Deus e tomar o seu lugar. A terceira tentação manifesta assim o verdadeiro rosto do mal, a sua hediondez e profunda injustiça. Com Cristo respondamos: “Não tentarás o Senhor teu Deus!”

Assim, vemos delineado o que devemos procurar nesta quaresma: uma consciência mais clara da precariedade da vida sem Deus, ou, se preferirmos, da vida sem a Vida. O que podemos sensatamente esperar dela? Também devemos pedir a Deus compreender que não existe um caminho intermédio entre o de Deus e o do mal, um caminho mais “humano”, mais adaptado ao que somos. A vida sem a Vida, não pode senão deslizar perigosamente para as redes da morte. Recordemos também que ninguém é mais humano que Deus, porque Ele fez-se homem, mais ainda tornou-se o homem modelo. Por isso, que esta quaresma nos veja também contemplando muito o exemplo de Cristo. Quem o seguir, passando pelo deserto, encontrará infalivelmente a Terra Prometida, da qual mana o leite e o mel do amor de Deus.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

6º Domingo do Tempo Comum, Ano C

LEITURA I Jer 17, 5-8

«Maldito quem confia no homem;
bendito quem confia no Senhor»

Leitura do Livro de Jeremias
Eis o que diz o Senhor:
«Maldito quem confia no homem
e põe na carne toda a sua esperança,
afastando o seu coração do Senhor.
Será como o cardo na estepe,
que nem percebe quando chega a felicidade:
habitará na aridez do deserto,
terra salobre, onde ninguém habita.
Bendito quem confia no Senhor
e põe no Senhor a sua esperança.
É como a árvore plantada à beira da água,
que estende as suas raízes para a corrente:
nada tem a temer quando vem o calor
e a sua folhagem mantém-se sempre verde;
em ano de estiagem não se inquieta
e não deixa de produzir os seus frutos».
Palavra do Senhor.


LEITURA II 1 Cor 15, 12.16-2o

«Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé»

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
Irmãos:
Se pregamos que Cristo ressuscitou dos mortos,
porque dizem alguns no meio de vós
que não há ressurreição dos mortos?
Se os mortos não ressuscitam,
também Cristo não ressuscitou.
E se Cristo não ressuscitou,
é vã a vossa fé, ainda estais nos vossos pecados;
e assim, os que morreram em Cristo pereceram também.
Se é só para a vida presente
que temos posta em Cristo a nossa esperança,
somos os mais miseráveis de todos os homens.
Mas não.
Cristo ressuscitou dos mortos,
como primícias dos que morreram.
Palavra do Senhor.

EVANGELHO Lc 6, 17.20-26

«Bem-aventurados os pobres.
Ai de vós, os ricos»


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
Jesus desceu do monte, na companhia dos Apóstolos,
e deteve-Se num sítio plano,
com numerosos discípulos e uma grande multidão
de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e Sidónia.
Erguendo então os olhos para os discípulos, disse:
Bem-aventurados vós, os pobres,
porque é vosso o reino de Deus.
Bem-aventurados vós que agora tendes fome,
porque sereis saciados.
Bem-aventurados vós que agora chorais,
porque haveis de rir.
Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem,
quando vos rejeitarem e insultarem
e proscreverem o vosso nome como infame,
por causa do Filho do homem.
Alegrai-vos e exultai nesse dia,
porque é grande no Céu a vossa recompensa.
Era assim que os seus antepassados tratavam os profetas.
Mas ai de vós, os ricos,
porque já recebestes a vossa consolação.
Ai de vós, que agora estais saciados,
porque haveis de ter fome.
Ai de vós que rides agora,
porque haveis de entristecer-vos e chorar.
Ai de vós quando todos os homens vos elogiarem.
Era assim que os seus antepassados
tratavam os falsos profetas.
Palavra da salvação.


Homilia Pe. Antoine Coelho, LC


Neste domingo a liturgia apresenta para a nossa meditação a proclamação das bem-aventuranças segundo o Evangelho de São Lucas. Estamos diante de uma parte crucial da mensagem de Jesus. Sabemos que ao centro de toda proposta religiosa está a questão da felicidade. Se as religiões são atraentes é precisamente por isso: prometem a felicidade para o fiel.

Hoje em dia, nenhuma outra realidade ou dimensão de nossa vida pode pretender oferecer a felicidade sem cair no ridículo: a ciência e a técnica já não o podem fazer de forma plausível. Quem acredita realmente hoje em dia que a ciência vai resolver os nossos problemas, sobretudo os nossos problemas mais profundos? Muito menos a política ou a economia o poderá. Tampouco as nossas famílias, fontes de grandes alegrias como de profundas preocupações. Os nossos lazeres pessoais e hobbies oferecem algum mas não resolvem o problema da vida.

Poderíamos continuar ainda esta enumeração. No fim, seriamos obrigados a chegar a esta conclusão: a felicidade não pertence ao nosso mundo. Mais ainda: não pertence ao homem. No máximo, podemos encontrar pequenas ou, inclusive, grandes alegrias na vida, mas serão sempre pequenas ilhas precárias de felicidade, sempre provisórias e às quais damos a volta com demasiada facilidade. No entanto, não só não pertence ao homem a felicidade, como, ainda por cima, foge dele. É curioso, mas quanto mais alguém neste mundo a busca para si, menos a encontra. É que na verdade, a felicidade não se trata de algo que possuímos como possuímos um carro ou uma qualidade pessoal ou qualquer outra realidade mundana. Como ficará mais claro depois, é a felicidade que nos deve possuir primeiro. Somente depois podemos possuí-la. É uma dinâmica absolutamente oposta às coisas deste mundo: nos as tomamos e pensamos ser os seus proprietários, mas se não sabemos desapegar-nos delas, são elas mesmas que nos vão escravizando pouco a pouco.

Voltando ao Evangelho, constatamos que Cristo, no início de sua missão, propõe as bem-aventuranças, ou seja, as atitudes interiores de que se devem revestir os discípulos se quiserem ser felizes nesta vida e chegar a experimentar, sobretudo na próxima vida, a felicidade total. Mas eis que encontramos uma anomalia. Algo que nenhum de nós seguramente faria se tivesse que inventar uma religião minimamente susceptível de conseguir adeptos. Cristo, chama felizes os pobres, os esfomeados, os que choram, os que são odiados por todos. E são terrivelmente desditosos os ricos, os saciados, os que riem, os admirados e elogiados. Poderá sobreviver uma religião que prega tal tipo de felicidade, uma religião que parece maltratar precisamente o que a poderia tornar atraente aos olhos dos homens?

A questão agrava-se mais se a consideramos desde esta perspectiva: as bem-aventuranças são um auto-retrato de Jesus. É Ele o pobre, o esfomeado, o que chora pelos pecados do mundo, o odiado ao ponto de ser crucificado, sem ter feito nada que pudesse merecer tal condenação. É Ele o bem-aventurado por excelência. Se Ele, o nosso modelo a seguir, viveu de forma tão dura as bem-aventuranças, como poderá esperar ter discípulos? Buda morreu com um sorriso nos lábios. Maomé tinha triunfado na vida: rico, admirado e poderoso, não podia pedir mais da existência, ao menos do ponto de vista mundano. E Cristo? Crucificado, abandonado por todos, objecto de todas as burlas. E ainda por cima recorda que a única forma de ser fiel ao seu ensinamento é segui-lo. De facto, ser cristão não pode significar outra coisa.

Mas vejamos agora a vida de alguns dos seus seguidores. Certas vidas de santos são tão impressionantes que podemos perguntar-nos se convém realmente ser cristão a este preço. A mística francesa Marthe Robin, que viveu no século passado, passou 40 anos alimentando-se somente da Eucaristia! Anoto que se trata de um facto comprovado, pois a sua fama era tão grande em França que muitos cépticos buscaram demonstrar que se tratava de uma invenção, mas nunca o conseguiram. O próprio Padre Pio, autor de inumeráveis milagres aqui em Itália, vivia com uma frugalidade insuportável para um homem comum. Sem contar as dores por causa dos estigmas, dores que não encontravam explicação médica. E que dizer de um exemplo que nos é ainda mais familiar: João Paulo II? Todos assistimos durante anos ao seu tão mediatizado calvário. Gostaríamos de partilhá-lo?

Como responder a estas perguntas? Em primeiro lugar, anotemos que é o Evangelho de São Lucas a propor com tal crueza as bem-aventuranças. Sabemos que Lucas gosta de suavizar as verdades evangélicas com expressões mais facilmente aceitáveis. Mas aqui, Lucas sente que estamos diante de uma realidade tão decisiva, que deve ser expressada em toda a sua pureza. É que estamos diante da cruz, e o maior favor que podemos fazer-lhe à cruz e ao homem e ao Evangelho, é apresentá-la tal como é. Cristo, felicidade e cruz: eis que vemos reunidos, nas bem-aventuranças, três termos centrais do Evangelho, que configuram o seu núcleo misterioso e que são, ao mesmo tempo, o segredo de seu lento, mas, cada vez mais dilatado sucesso. Eles podem resumir-se numa única expressão: amor, amor que é divino e humano ao mesmo tempo. A grande tentação de todos os tempos será buscar conseguir adeptos, separando a cruz dos outros dois termos, mas assim destrói-se o amor. Consequentemente o cristianismo, como não tem nada mais que dar ao mundo, acaba por perder os fiéis.

Certa vez, fiquei impressionado ao ler as experiências pessoais de dois ex-prisioneiros dos campos de concentração alemães, durante a segunda guerra mundial. Eram ambos resistentes franceses, que a Gestapo acabara por descobrir e deportar. O primeiro, que fora parar a Buchenwald, conta como, durante estes anos, o ter sido objecto do ódio mais brutal e sagaz ao mesmo tempo, tinha-lhe sulcado a psicologia com feridas que nunca mais sarariam. Ainda 50 anos depois, sentia o peso colossal do mal, que lhe esmagara para sempre parte da alma. O segundo, Edmond Michelet, ministro francês com De Gaulle, 20 anos depois, relatava numa conferência como a experiência, no campo de Dachau, tinha sido feliz. Sim, tinha sido segundo ele uma experiência feliz! Como é possível tal disparidade de impressões? Conta Edmond que por uma graça especial de Deus, tinha-se sentido unido aos mártires cristãos, especialmente a São Tarcísio, que ele tanto venerava, por ter este santo preferido morrer apedrejado que entregar a Eucaristia a pagãos desejosos de a profanarem. O terrível ódio de Dachau, que se abatera sobre Edmond, não lhe impedira dar um sentido a esta experiência, de encontrar “entre as feras” o sentido da existência: dar a própria vida, unido a Cristo, para o triunfo do amor.

A psicologia de Edmond não saíra mutilada de Dachau, porque aí, neste inferno humano, encontrara Aquele que nunca temeu os infernos humanos, mas antes viveu-os com mais radicalidade que ninguém: Cristo. Edmond fizera a experiência da sua Cruz, experimentara com singularíssima intensidade o conteúdo paradoxal das bem-aventuranças. Vivera o amor, como Cristo o tinha vivido dois mil anos antes, de forma divina e humana, e isso foi o segredo da grande felicidade e paz, que caracterizou depois o resto de sua vida. Uma felicidade e paz profundas, que não dependiam de circunstâncias externas, de caprichos pessoais, da condescendência de homens volúveis, mas unicamente de saber que, dando-se a si mesmo, construía a misteriosa civilização do amor, que, quando os tempos chegarem ao seu fim, chamaremos a Jerusalém Celeste: a Cidade que não necessitará mais a luz do sol, porque Deus brilhará para todos em seu centro.

Sabemos que a felicidade significa amar e ser amado. O que não sempre sabemos é que não existe um amor sem cruz. Em todos nós, existe o sonho de conseguir produzir nas nossas vidas um amor sem verdadeiro sacrifício. Mas também, ao mesmo tempo, nas profundezas da nossa consciência, bem sabemos que isso não é possível. O amor verdadeiro quer dizer deixar-se a si mesmo, viver para os outros. É isso o que produz paz. É um amor que tem de ser vivido concretamente, indo ao encontro dos outros. Custa. Mas, ao mesmo tempo, libera. Conta o actor Eduardo Verastegui numa entrevista, como não tem sido fácil para ele viver a castidade em Hollywood. No entanto, experimenta que, cada dia depois de sua conversão, vale mais e é mais feliz que os 20 anos anteriores, vividos com muita “liberdade”.

Cristo sabia isso, sabia onde se encontrava a verdadeira liberdade e felicidade. Mais ainda, sabia que Ele era a nossa felicidade. “Vinde a mim os que estais cansados e encontrareis o vosso descanso”, exclama Ele no Evangelho. O segredo da felicidade, como dizíamos, não é buscá-la freneticamente, procurando novas experiências, tecnologias, novas possessões, companhias humanas… O segredo da felicidade é muito mais simples: é confiar nela e deixar que ela nos encontre: Jesus bate à nossa porta todos os dias. Se abrirmos Ele entrará, sentar-se-á e jantará connosco, e quem nos poderá roubar a força de sua alegria que procede directamente da Eternidade e que enche a alma de uma paz sobrenatural? É essa paz que Edmond e Eduardo e tantos outros cristãos encontraram até darem a sua vida por ela.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Qual a melhor religião?

Caros amigos, enviei esta resposta a um bom amigo sobre uma apresentação [clique para a ver] que me enviou. Achei que podia ajudar. Vale a pena vê a apresentação porque dá que pensar:

«Bonita apresentação. Conheço o Leonardo Boff. Foi franciscano. Casou e deixou o sacerdócio. Coisas que podem suceder e que não temos direito de julgar, como é óbvio. Tudo isso aconteceu sem que antes tivesse feito uma curiosa mistura entre fé e marxismo nos anos 70 e 80. Depois da caída do muro de Berlim, virou-se para o ecologismo e agora está ocupado com a ética global.

Daí esta ideia de fundo da apresentação, que ele não menciona directamente, mas que se pode deduzir: o verdadeiro culto é a compaixão, a bondade, a misericórdia, ser altruísta, a responsabilidade, etc. E certamente é verdade. Não existe verdadeiro culto sem isso. Como diz São Joao, não pode amar o Deus que não vê, quem não ama o seu irmão que vê.

Mas há outro aspecto o muito ligado a isso que ele deixa na sombra. Como faço para viver assim? As sombras, o mal, em mim, não é como um vestido de que me posso despir porque simplesmente o quero. A experiência pessoal e a história da humanidade ensinam que habita no coração do homem, no centro do seu ser. Por isso é tão difícil perdoar, por isso surgem os problemas de herdade e outros familiares, os problemas conjugais, problemas infinitos quando entre as pessoas está em jogo o dinheiro, por isso esta tendência tão forte a fazer de si mesmo o centro da vida, a preferir a fama, o sucesso ao bem do próximo, etc. Esse mal só Deus pode vencê-lo em mim, embora sempre com a minha colaboração, como é lógico.

Neste sentido, o que eu responderia ao Dalai Lama é que a religião verdadeira não é tanto aquela através da qual tu te aproximas de Deus, mas é aquela em que Deus se aproxima de ti e te salva. Sabemos que isso não existe nas religiões orientais. Nelas, é o homem que se salva e não Deus que o salva. Nelas, não existe Deus salvador. É verdade que acreditam nos assim chamados “avatares”. Mas não te salvam, realmente. Indicam o caminho que tu vais ter que percorrer. E no fundo, estás sozinho nisso. Podes ter gente a apoiar, a encorajar, a dar bom exemplo, mas só tu caminhas o teu próprio caminho.

Mas o homem não se pode salvar por si mesmo. Estou convencido disso. Vivo todos os dias nas estreitas paredes da minha própria limitação. Mas eu creio em Jesus, que em arameu quer dizer precisamente “Deus salva”, eu creio nesse Deus que sem qualquer interesse próprio se faz homem e dá a vida por mim numa cruz.

Porquê numa cruz? Porque o mal é tão sério que Deus não o quer apagar sem mais nem menos. Isso seria irresponsabilidade. Alguém tem de pagar o preço. Como o homem não o podia fazer, Deus mesmo fê-lo por ele. Com o exemplo desse Deus sinto-me realmente impelido a fazer, também eu, o bem, mesmo quando o preço é alto. Mas sobretudo (e isso é realmente decisivo) o que aconteceu é que esse Deus que se fez homem e morreu por mim na cruz, tomando sobre si o mal do mundo, uniu-se a todo homem. E, se eu O acolher, aceitando lutar por cumprir os seus mandamentos apesar de minha fraqueza e de todas as minhas numerosas caídas passadas, presentes e futuras, Ele então vive em mim. “Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”, diz São Paulo aos Gálatas. Ele ama em mim. Trabalha em mim. Sacrifica-se em mim. E então não sou eu que me torno bom, porque no fundo sou bom, sou forte, tenho muitos méritos e capacidades…Mas é Ele e eu numa espécie de matrimónio místico em que Ele está em mim e eu n’Ele...Ele e eu vamos caminhando em direção ao Pai. Não existe a solidão, não carregamos o peso de tudo nas nossas costas tão fracas. Ele carregou a cruz e eu, como Simão de Cirene, vou e ajudo-o a levar a cruz (a minha cruz!).

Essa é a nossa vida cristã. Isso é o que eu tenho experimentado cada dia nesses 16 anos de vida religiosa. Sinceramente não quero outra coisa….

Perdão, se prolonguei a resposta, mas acho importante entender o que nos caracteriza e porque uma ética global, mesmo se em si é um esforço que merece louvor…não basta. Podes enviar o que eu disse a quem quiseres, se vires que pode ter alguma utilidade.»

P. Antoine, LC

Cerco de Jericó

Já temos noticiado o Cerco de Jericó realizado na Paróquia de S. Pedro e S. João do Estoril, e esta é uma forma de oração feita pelo mundo fora, mas por vezes pergunta-se, o que é e como surgiu?

Para dar resposta a essas perguntas a Paróquia de S. Pedro e S. João do Estoril cedeu-nos o texto publicado no seu último boletim "Paróquia em Movimento", que passamos a transcrever em parte:

«O Cerco de Jericó consiste num incessante “assalto” de rosários, durante sete dias e seis noites, rezados diante do Santíssimo exposto. Por que “Cerco de Jericó”?

No Antigo Testamento, depois da morte de Moisés, Deus acolheu Josué para conduzir o povo hebreu. Deus disse a Josué que atravessasse o Jordão com todo o povo e tomasse posse da terra prometida. Ora, a cidade de Jericó era uma fortaleza inexpugnável. Ao chegar junto às muralhas de Jericó, Josué ergueu os olhos e viu um anjo, com uma espada na mão, que lhe deu ordens concretas e detalhadas. Josué e todo Israel executaram fielmente as ordens recebidas: durante seis dias, os valentes guerreiros de Israel deram uma volta em torno da cidade. No sétimo dia, deram sete voltas. Durante a sétima volta, ao som da trombeta, todo o povo levantou um grande clamor e, pelo poder de Deus, as muralhas de Jericó caíram…

“Jericó tinha fechado e aferrolhado as suas portas por medo dos israelitas, e ninguém ousava sair nem entrar na cidade. O Senhor disse a Josué: «Vê! Entrego-te Jericó, o seu rei e os seus valorosos guerreiros. Dai uma volta em torno da cidade, vós e todos os homens de guerra. Fareis isso durante seis dias. Sete sacerdotes, tocando sete trombetas, irão à frente da Arca; no sétimo dia, dareis sete vezes a volta à cidade, com os sacerdotes a tocar trombeta. À medida que o som do corno for crescendo e o toque das trombetas se tornar mais forte, todo o povo irromperá em grande clamor; a muralha da cidade há-de desabar e o povo subirá à cidade, cada um para o lugar que lhe fica em frente.» Josué, filho de Nun, reuniu os sacerdotes e disse-lhes: «Levai a Arca da aliança, e sete sacerdotes estejam diante dela com trombetas.» Depois, disse ao povo: «Em frente! Dai a volta à cidade com os guerreiros a marchar à frente da Arca do Senhor.» Mal Josué acabou de falar, os sete sacerdotes que levavam as sete trombetas puseram-se em marcha diante do Senhor, tocando os seus instrumentos. A Arca do Senhor seguiu-os. Os guerreiros marchavam à frente dos sacerdotes que tocavam a trombeta. A Arca seguia na retaguarda. Durante toda a marcha, ouvia-se o troar das trombetas. Josué tinha dado esta ordem ao povo: «Não griteis nem façais ouvir a vossa voz, nem saia da vossa boca palavra alguma até ao dia em que eu disser: ‘Gritai!’ Então gritareis com força.» A Arca do Senhor deu uma volta à cidade, e voltaram ao acampamento, a fim de ali passarem a noite. ... O povo gritou e os sacerdotes tocaram as trombetas. Mal o povo escutou o som das trombetas, fez ouvir um grande clamor e as muralhas da cidade desabaram; os filhos de Israel subiram à cidade, cada um pela brecha que tinha na sua frente e tomaram a cidade.”
(Josué 6, 1-11 20-21)

Em várias partes do mundo estão sendo realizados agora Cercos de Jericó. A 2 de fevereiro de 1986, Anatol Kazczuckaquela recebia outra mensagem da Rainha Vitoriosa do Santíssimo Rosário: “Ide ao Canadá, aos Estados Unidos, à Inglaterra e à Alemanha para salvar o que ainda pode ser salvo.” Nossa Senhora não pede, mas ordena que se organizem os rosários permanentes e os Cercos de Jericó, se queremos ter a certeza da vitória.»

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Pesquisando um pouco mais, ficamos a saber que nos nossos tempos esta devoção tomou vida nos tempos da Guerra Fria no século XX, João Paulo II quer visitar a Polónia, sua terra natal, mas derivado às complicadas condições políticas da altura, houve dificuldades.

Conseguiu-se agendar a sua visita originalmente, para 8 de Maio de 1979, por ocasião do 91º aniversário do martírio de S. Estanislau, bispo de Cracóvia.

Contudo, em Novembro de 1978, sete semanas depois do Conclave que o elegeu Papa, Nossa Senhora deu uma indicação a uma polaca: "Para a preparação da primeira peregrinação do Papa à sua Pátria, deve-se organizar na primeira semana de Maio de 1979, em Jasna Gora (Santurário Mariano), um Congresso do Rosário: sete dias e sete noites de Rosários consecutivos diante o Santíssimo Sacramento exposto."

"É bom rezar diante do Santíssimo Sacramento exposto; é bom rezar o terço pelo Papa; é bom rezar em Jasna Gora. Podeis fazê-lo." Anatol apresentou também a mensagem de Nossa Senhora a Monsenhor Stefano Barata, bispo de Czastochowa e presidente da Comissão Mariana do Episcopado. Ele alegrou-se com o projeto, mas aconselhou-os a não darem o nome de "congresso", para maior facilidade na sua organização. Como esse "assalto" de rosários devia durar sete dias, e, tal como em Jericó, tinha-se certeza da vitória, deu-se-lhe o nome de Cerco de Jericó.

O padre director de Jasna Gora aprovou o projeto, mas não queria que se realizasse em Maio por causa dos preparativos para a visita do Santo Padre. Dizia ele: "Seria melhor em abril". "Mas a Rainha do Céu deu ordens para se organizarem esses rosários permanentes na primeira semana de Maio", respondeu o Sr. Anatol. O padre aceitou, recomendando-lhe que fossem evitadas pertubações. A Santíssima Virgem sabia bem que o Cerco de Jericó em maio não iria perturbar a visita do Papa, porque ele não viria. E, logo a seguir, as autoridades recusaram o visto de entrada no país ao Santo Padre, como tinham feito a Paulo VI em 1966. Consternação geral em toda a Polónia.

O Papa não poderia visitar a sua Pátria. Foi, então, com redobrado fervor que se organizou o "assalto" de rosários. E, no dia 7 de Maio, ao mesmo tempo que terminava o Cerco, caíram "as muralhas de Jericó". Um comunicado oficial anunciava que o Santo Padre visitaria a Polónia de 2 a 10 de junho. Sabe-se como o povo polaco viveu esses nove dias com o Papa, o "seu" Santo Padre, numa alegria indescritível! No dia de 10 de junho, João Paulo II terminava a sua peregrinação, consagrando, com todo Episcopado polaco, a nação polaca ao Coração Doloroso e Imaculado de Maria, diante de um milhão e quinhentos mil fiéis reunidos em Blonic Kraskoskic. Foi a apoteose! Depois dessa estrondosa vitória, a Santíssima Virgem ordenou que se organizassem Cercos de Jericó todas as vezes que o Papa João Paulo II saísse em viagem apostólica. Por ocasião do atentado contra o Papa, em 13 de maio de 1981, os polacos lançaram de novo um formidável "assalto" de rosários e obtiveram o seu inesperado restabelecimento. Mais uma vez, as muralhas de ódio de satanás se abatiam diante do poder da Avé Maria.

Tanto Portugal como no mundo em geral faz-se muito 24 horas de oração em vez dos 7 dias e 7 noites.

Desejamos a todos que se retirem muitos frutos desta forma de oração.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

5º Domingo do Tempo Comum, Ano C

LEITURA I Is 6, 1-2a.3-8

«Eis-me aqui: podeis enviar-me»

Leitura do Livro de Isaías
No ano em que morreu Ozias, rei de Judá,
vi o Senhor, sentado num trono alto e sublime;
a fímbria do seu manto enchia o templo.
À sua volta estavam serafins de pé,
que tinham seis asas cada um
e clamavam alternadamente, dizendo:
«Santo, santo, santo é o Senhor do Universo.
A sua glória enche toda a terra!».
Com estes brados as portas oscilavam nos seus gonzos
e o templo enchia-se de fumo.
Então exclamei:
«Ai de mim, que estou perdido,
porque sou um homem de lábios impuros,
moro no meio de um povo de lábios impuros
e os meus olhos viram o Rei, Senhor do Universo».
Um dos serafins voou ao meu encontro,
tendo na mão um carvão ardente
que tirara do altar com uma tenaz.
Tocou-me com ele na boca e disse-me:
«Isto tocou os teus lábios:
desapareceu o teu pecado, foi perdoada a tua culpa».
Ouvi então a voz do Senhor, que dizia:
«Quem enviarei? Quem irá por nós?».
Eu respondi:
«Eis-me aqui: podeis enviar-me».
Palavra do Senhor.
 
LEITURA II Forma longa 1 Cor 15, 1-11

«É assim que pregamos e foi assim que acreditastes»

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
Recordo-vos, irmãos, o Evangelho
que vos anunciei e que recebestes,
no qual permaneceis e pelo qual sereis salvos,
se o conservais como eu vo-lo anunciei;
aliás teríeis abraçado a fé em vão.
Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu mesmo recebi:
Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras;
foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras,
e apareceu a Pedro e depois aos Doze.
Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez,
dos quais a maior parte ainda vive,
enquanto alguns já faleceram.
Posteriormente apareceu a Tiago e depois a todos os Apóstolos.
Em último lugar, apareceu-me também a mim,
como o abortivo.
Porque eu sou o menor dos Apóstolos
e não sou digno de ser chamado Apóstolo,
por ter perseguido a Igreja de Deus.
Mas pela graça de Deus sou aquilo que sou,
e a graça que Ele me deu não foi inútil.
Pelo contrário, tenho trabalhado mais que todos eles,
não eu, mas a graça de Deus, que está comigo.
Por conseguinte, tanto eu como eles,
é assim que pregamos;
e foi assim que vós acreditastes.
Palavra do Senhor.


EVANGELHO Lc 5, 1-11

«Deixaram tudo e seguiram Jesus»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
estava a multidão aglomerada em volta de Jesus,
para ouvir a palavra de Deus.
Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré
e viu dois barcos estacionados no lago.
Os pescadores tinham deixado os barcos
e estavam a lavar as redes.
Jesus subiu para um barco, que era de Simão,
e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra.
Depois sentou-Se
e do barco pôs-Se a ensinar a multidão.
Quando acabou de falar, disse a Simão:
«Faz-te ao largo
e lançai as redes para a pesca».
Respondeu-Lhe Simão:
«Mestre, andámos na faina toda a noite
e não apanhámos nada.
Mas, já que o dizes, lançarei as redes».
Eles assim fizeram
e apanharam tão grande quantidade de peixes
que as redes começavam a romper-se.
Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco,
para os virem ajudar;
eles vieram e encheram ambos os barcos,
de tal modo que quase se afundavam.
Ao ver o sucedido,
Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe:
«Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador».
Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele
e de todos os seus companheiros,
por causa da pesca realizada.
Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu,
que eram companheiros de Simão.
Jesus disse a Simão:
«Não temas.
Daqui em diante serás pescador de homens».
Tendo conduzido os barcos para terra,
eles deixaram tudo e seguiram Jesus.
Palavra da salvação.


Homilia Pe. Antoine Coelho, LC


A leitura do profeta Isaías, que nos apresenta a liturgia deste domingo, é sob muitos aspectos consoladora. Trata-se da chamada deste mesmo profeta a anunciar a palavra de Deus.

No ano em que morreu Ozias, Rei de Judá, Isaías é favorecido com uma visão extraordinária de Deus. Vê o Senhor num trono alto e sublime, com a fímbria do manto a encher todo o templo. À sua volta incontáveis serafins cantam a triple santidade de Deus. Com tais orações, tremem as próprias portas do templo, onde se desenvolve a cena. O ar carrega-se de incenso. Nenhum detalhe desta aparição é deixada ao acaso. Tudo é altamente significativo.

Deus é o rei incontestável do universo, sentado num trono alto e sublime. Não existem outros deuses, nem outros tronos. Não existem tampouco outras autoridades que se possam comparar à d’Ele. Mas não é um ser solitário: vive rodeado de uma infinidade de seres, dos quais Ele é a suprema alegria, pois extasiados repetem “santo, santo, santo”. A tríplice repetição do “santo” significa na língua hebreia que Deus possui esta qualidade em grau máximo: n’Ele não há manchas, não se mistura o mal nas suas decisões, o seu ser é puro amor e é unicamente o amor a guiar o seu actuar. Mas é um amor ao mesmo tempo misterioso, precisamente porque é tão elevado. Por isso, não esperemos compreender exaustivamente este amor e os seus caminhos. Confiemos.

Ao mesmo tempo, a tríplice repetição do “santo” é indício de outra coisa. Sugere uma pluralidade em Deus, que não por isso deixa de ser um único Deus. Se Ele somente fosse rodeado de criaturas angélicas, continuaria, no fundo, a ser uma realidade solitária e incompreendida, pois só Deus pode compreender Deus. Só Deus pode ser realmente uma companhia para Deus. Um homem, por mais que estivesse rodeado de animais, continuaria a viver sozinho, a não ser que dispusesse da companhia de outros homens. Mas como sabemos o nosso único Deus é, ao mesmo tempo, a comunidade de amor das três Pessoas divinas, comunidade sem tristezas, nem solidão, o que explica porquê o amor é a realidade mais alta que possa existir.

Mas voltemos ao quadro que nos pinta Isaías. Outro elemento significativo é o facto de que o manto de Deus enche todo o espaço. Deus é o mais alto, sem dúvida, mas isso não implica que esteja fora do mundo. Cobre tudo com o manto, ou seja, com a sua presença protectora. Em cada uma das nossas pequenas casas, em meio das nossas ocupações mais banais, insinua-se o seu amor misericordioso. Mas não basta esse cobertor para que as coisas corram como devem. O que seria esta cena, se Isaías visse os anjos atarefados, com indiferença, em mil coisas e esquecendo o seu Rei a quem tudo devem? O centro da sua atenção não poderia ser outro que Deus a quem gritam sem cessar “santo, santo…”. Tão potentes são os seus brados que todo o templo vibra. Como é poderosa a oração! Ela é também simbolizada pelo incenso que enche o ar a encher-se de fumo, sinal da capacidade que as preces têm de transformar e purificar o ambiente no qual respiramos. Sim, Deus está em todo o lado, mas actua só aí onde é chamado, como o mais humilde dos criados…

A cena termina com o Isaías a angustiar-se: “Ai de mim que estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, moro no meio de um povo de lábios impuros e os meus olhos viram o Rei…” Certamente, não lhe faltam motivos para sentir a sua indignidade, mas eis que contra toda a expectativa aparece um serafim, que lhe põe sobre os lábios um carvão ardente e lhe diz: “isso tocou os teus lábios, desapareceu o teu pecado”. Como está bem representado o amor de Deus através de este carvão ardente! E como existe uma atracção irresistível entre esse carvão, o amor de Deus, e os lábios desse homem que não temeram proferir palavras de humildade! Adão escondeu-se depois do pecado original e esse pecado permaneceu. Isaías ficou e humilhou-se: isso significou um novo início para ele, novo início caracterizado por uma missão, pois a partir de este momento Isaías é enviado aos homens.

O Evangelho, relatando a pesca milagrosa, apresenta-nos uma situação similar e ao mesmo tempo profundamente diversa. Aqui também trata-se de um acontecimento assombroso, que faz pressentir um poder que só pode ser divino. Cristo pede que as redes sejam lançadas em pleno dia, numa altura péssima para a pesca. Mas assim como o manto de Deus cobre as regiões mais longínquas do universo, as “redes espirituais” de Cristo e, no futuro, da Igreja, estendem-se onde quer que seja, sem limites. O número de peixes recolhidos supera por muito o que um pescador poderia esperar.

Aqui também assistimos a um novo início, desta vez para Pedro. Também ele, depois da incrível manifestação de poder por parte de Jesus, não pode deixar de manifestar a sua indignidade da forma mais eloquente. Lançando-se aos pés do Senhor, suplica-lhe que se aparte dele, pois não é mais que um pobre pecador. E justamente, produz-se o contrário daquilo que pede, pois Deus ama estar entre os homens humildes. Assim, Cristo liga-se para sempre ao futuro chefe da Igreja: “Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens”.

Uma diferença essencial entre as duas cenas salta, no entanto, à vista. No caso de Isaías, o homem de Deus é absorvido no mundo de Deus e assiste à liturgia celeste. No caso de Pedro, é Deus a entrar no seu universo de pescador. É Deus que entra na sua barca e mais ainda, na sua vida, porque Cristo o acompanha para a pesca. Aqui não encontramos serafins que transportam carvões ardentes. É Deus mesmo a tranquilizá-lo com palavras tão singelas quanto profundas. “Não temas!” Sim, esse Deus-homem, Cristo, não deve ser temido. Quem teme uma irrupção violenta do divino na sua vida, que o força uma conversão e o aparta das coisas que ama, precisa ler atentamente esta passagem. É verdade que Deus purifica o homem e é bom que assim seja, mas este processo é feito com tanta arte e suavidade, com tanta compreensão da situação e do drama humano na qual nos encontramos, que podemos sem qualquer receio começar um caminho espiritual, por onde Ele saberá guiar-nos com impar pedagogia.

Realmente, Pedro não podia imaginar o que significaria para ele ser “pescador de homens”. Mas vejam como até na formulação da missão, Deus usa os términos mais familiares possíveis a Pedro. Pescador é o que ele tem sido toda a vida! Sim, o que temos sido toda a vida com tudo o que ela tem de bom, de válido e de reconfortante, Deus não o destruirá nunca, mas o elevará até uma altura inimaginável. Um sinal de isso é precisamente a pesca milagrosa: todas as potencialidades de Pedro serão agora multiplicadas infinitamente, porque não será ele simplesmente a actuar, mas Deus com ele. E, se algo do que tínhamos ficou no caminho, é porque não possuía grande importância para nós ou porque, inclusive, era nocivo.
Ajudemos, pois, esse Deus a entrar nas nossas vidas e nos nossos lares. Eis que Ele bate suavemente à porta, como ensina o livro do Apocalipse, não a romperá: “Olha que estou à porta e chamo; se alguém ouvir minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e jantarei com ele e ele comigo” (Ap 3, 20-21).

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2010

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
O PAPA BENTO XVI
PARA A QUARESMA DE 2010

A justiça de Deus está manifestada
mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3, 21–22 )

Queridos irmãos e irmãs,

todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revisão sincera da nossa vida á luz dos ensinamentos evangélicos . Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3,21 – 22 ).

Justiça: “dare cuique suum”

Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra “justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada um o que é seu – dare cuique suum”, segundo a conhecida expressão de Ulpiano, jurista romana do século III. Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa em que é que consiste aquele “suo” que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais intimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado á sua imagem e semelhança. São certamente úteis e necessários os bens materiais – no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que também hoje condena centenas de milhões de seres humanos á morte por falta de alimentos, de água e de medicamentos - , mas a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o “suo” que lhe é devido. Como e mais do que o pão ele de facto precisa de Deus. Nora Santo Agostinho: se “ a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu…não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus” (De civitate Dei, XIX, 21).

De onde vem a injustiça?

O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate de então acerca do que é puro e impuro: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos” (Mc 7,14-15.20-21). Para além da questão imediata relativo ao alimento, podemos entrever nas reacções dos fariseus uma tentação permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua actuação: Esta maneira de pensar - admoesta Jesus – é ingénua e míope. A injustiça, fruto do mal , não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista:”Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl. 51,7). Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, pegando no fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram á lógica de confiar no Amor aquela da suspeita e da competição ; á lógica do receber, da espera confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cfr Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza. Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?

Justiça e Sedaqah

No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo entre fé em Deus que “levanta do pó o indigente (Sl 113,7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem. De facto sedaqah significa, dum lado a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; do outro, equidade em relação ao próximo (cfr Ex 29,12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e á viúva ( cfr Dt 10,18-19). Mas os dois significados estão ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é senão a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho. Isto é, a escuta da Lei , pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do Egipto (cfr Ex s,8). Deus está atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre ( cfr.Ecli 4,4-5.8-9), o estrangeiro ( cfr Ex 22,20), o escravo ( cfr Dt 15,12-18). Para entrar na justiça é portanto necessário sair daquela ilusão de auto – suficiência , daquele estado profundo de fecho, que á a própria origem da injustiça. Por outras palavras, é necessário um “êxodo” mais profundo do que aquele que Deus efectuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente a realizar. Existe portanto para o homem esperança de justiça?

Cristo, justiça de Deus

O anuncio cristão responde positivamente á sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “ Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes. De facto não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé” (3,21-25)

Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O facto de que a “expiação” se verifique no “sangue” de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si “ a maldição” que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cfr Gal 3,13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objecção: que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o contrário do que é “seu”? Na realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidencia que o homem não é um ser autárquico , mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.

Compreende-se então como a fé não é um facto natural, cómodo, obvio: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitencia e da Eucaristia. Graças á acção de Cristo, nós podemos entrar na justiça “ maior”, que é aquela do amor ( cfr Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.

Precisamente fortalecido por esta experiencia, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.

Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autentica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção Apostólica.
Vaticano, 30 de Outubro de 2009
BENEDICTUS PP. XVI

© Copyright 2009 - Libreria Editrice Vaticana

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Acabar sempre bem as nossas tarefas...

Desde há uns anos que recebo diariamente no meu e-mail a newletter da Opus Dei.

Nessa altura percebi que pelas palavras do fundador, S. José Maria Escrivá, que deveremos terminar sempre bem as nossas tarefas, quaisquer que sejam, desde a escola, ao laboratório, oficina, campo, escritório, faculdade... como se estivessemos a realizar essas mesmas tarefas para oferecer a Deus.

Como nunca queremos oferecer a um amigo algo inacabado ou mal acabado, muito menos iremos entregar o fruto do nosso trabalho, mal concretizado a Deus (a Deus e ao nosso superior no local de trabalho, faz parte da nossa boa formação como Cristãos).

Estas newsletters contém uma mensagem do dia, composta por transcrições das obras escritas por S. José Maria Escrivá.

Se quiser passar a receber também no seu e-mail diariamente, pode subscrever no site da Opus Dei.

Como a newsletter de hoje toca no assunto de terminar bem as nossas tarefas, transcrevi aqui :

03 de fevereiro de 2010

“Deus não aceita trabalhos 'marretados'”


«É difícil gritar ao ouvido de cada um com um trabalho silencioso, através do bom cumprimento das nossas obrigações de cidadãos, para depois exigir os nossos direitos e pô-los ao serviço da Igreja e da sociedade. É difícil..., mas é muito eficaz. (Sulco, 300)

Começar é de muitos; acabar, de poucos. E entre esses poucos temos de estar nós, os que procuramos comportar-nos como filhos de Deus. Não o esqueçamos: só as tarefas terminadas com amor, bem acabadas, merecem o aplauso do Senhor que se lê na Sagrada Escritura: É melhor o fim de uma obra do que o seu começo.

Muitos cristãos perderam o convencimento de que a integridade de vida, reclamada pelo Senhor aos seus filhos, exige um autêntico cuidado na realização das tarefas próprias, que devem santificar descendo aos pormenores mais ínfimos.

Não podemos oferecer ao Senhor uma coisa que, dentro das pobres limitações humanas, não seja perfeita, sem mancha, realizada com atenção até nos mínimos detalhes: Deus não aceita trabalhos “marretados”. Não apresentareis nada de defeituoso, admoesta-nos a Escritura Santa, pois não seria digno dEle. Por isso o trabalho de cada qual - essa atividade que ocupa as nossas jornadas e energias - há de ser uma oferenda digna aos olhos do Criador, operatio Dei, trabalho de Deus e para Deus; numa palavra, uma tarefa acabada, impecável.

Se repararmos bem, entre as muitas palavras de louvor que disseram de Jesus os que contemplaram a sua vida, há uma que de certo modo compreende todas as outras. Refiro-me à exclamação, prenhe de acentos de assombro e de entusiasmo, que a multidão repetia espontaneamente ao presenciar atônita os seus milagres: Bene omnia fecit, fez tudo admiravelmente bem: os grandes prodígios e as coisas triviais, cotidianas, que a ninguém deslumbraram, mas que Cristo realizou com a plenitude de quem é perfectus Deus, perfectus homo, perfeito Deus e homem perfeito. (Amigos de Deus, 55-56)»

Com este género de pensamento de estarmos a oferecer o nosso trabalho também a Deus, dá a sensação de oração contínua ao longo do dia.

Quer experimentar?

Pedro Mestre