Caros amigos,
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Homilias e Orações
Caros amigos,
LEITURA I
Bar 5, 1-9LEITURA I
Jer 33, 14-16Podemos perguntar-nos porquê o primeiro domingo do advento, refere-se às duas vindas de Cristo, quando no fim de contas este tempo é de preparação para o Natal. A resposta é simples. Agora a nossa preparação para as festas do Natal é ao mesmo tempo uma preparação para a segunda vinda de Cristo. Mas não podemos preparar-nos bem para esta segunda vinda, quando Cristo há de nos julgar, se não pusermos os nossos olhos na primeira vinda onde a humildade de Deus que se faz pequeno e vulnerável é o melhor antídoto para os problemas que embargam o nosso coração.
Se o Filho de Deus tivesse aparecido resplandecente numa grande capital do mundo antigo, em vez de nascer num miserável estábulo e se ele tivesse tido uma vida gloriosa, segundo o modo dos imperadores, por mais que ele tivesse governado com justiça, sobriedade e amor a lição não teria sido completa. Sempre teríamos pensado que ser grande consiste em deslumbrar os outros, ocupar postos especialmente relevantes onde as nossas decisões se impõem aos outros, viver em condições privilegiadas. E também, por mais que esse “Deus-imperador” tivesse buscado o contacto directo com as pessoas e mostrado interesse pelos seus pequenos problemas de cada dia, tê-lo-íamos sempre visto distante de nós, elevado num pedestal à altura do qual não poderíamos chegar. Mas Belém muda radicalmente os nossos modos de pensar. Em Belém, Deus é um bebé que precisa do calor dos nossos braços, é a criatura mais incapaz de sobreviver neste mundo, é o monarca que menos poder de coacção apresenta. Poderás dizer não a este Deus mendigo?
Mas talvez podes responder: “Não! Não é possível que Deus queira fazer isso. É contra a sua dignidade divina! Esse menino é um ser humano como todos os outros que a nossa imaginação religiosa divinizou”. No entanto, é em Belém que tocamos com as nossas mãos a incrível dignidade de Deus. Ele é tão digno e tão grande que não teme tornar-se pequeno. Não teme ser um mendigo que bate a tua porta. Poderemos afrentá-lo, desprezá-lo, ridiculizá-lo, pois está ao alcance da mão. Poderemos inclusive esmagá-lo e de facto fá-lo-emos crucificando-o na cruz, e também na Eucaristia com as nossas indiferenças e profanações. Mas se todas estas terríveis possibilidades significam pouco para Ele, comparado com a suprema possibilidade de conquistar em profundidade os nossos corações, então é porque o nosso Deus é de uma nobreza fora de toda proporção. E então fechar-lhe o coração não é simplesmente negar uma autoridade, fosse ela suprema; é negar o amor. Não lhe abrir totalmente as portas da nossa vida é fazer-se mal a si mesmo.
Mas abrir-lhe as portas do coração não se improvisa. Não é simplesmente o fruto de uma decisão pontual. Quem quiser subir os Himalaias deve treinar-se e assim renovar cada dia a sua decisão de subir a estes cumes, ao mesmo tempo que vai modificando pouco a pouco as suas características físicas. Temos de reaprender a amar, reeducar o nosso coração petrificado por maus hábitos, tornando-o disponível para o Senhor que vem. Por isso, São Paulo exorta oportunamente os tessalonicenses: “recebestes de nós instruções sobre o modo como deveis proceder para agradar a Deus e assim estais procedendo; mas deveis progredir ainda mais. Conheceis bem as normas que vos demos da parte do Senhor Jesus”. Devemos habituar-nos a seguir as regras do amor, e isso não significa outra coisa que ser fiel à moral que a Igreja nos pede. Mas falar de regras do amor não é rebaixá-lo, dar-lhe um rosto demasiado severo? O amor não deveria ser algo espontâneo e livre por excelência, não deveria ser o lugar da felicidade?
Mas o Senhor, ao respeito do dia da sua segunda vinda, avisa-nos: “tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela devassidão, a embriaguez e as preocupações da vida, e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha”. O amor é efectivamente o jardim da nossa vida, o oásis onde encontramos repouso e felicidade, mas precisa ser protegido. Para isso são as leis do amor. Facilmente o que pensamos ser amor transforma-se em busca de si mesmo e de prazer. Por termos bons sentimentos pensamos que amamos realmente. Mas amar é muito mais que isso, é fazer objectivamente o bem. Madre Teresa de Calcutá durante anos e anos, não sentia a presença de Deus na sua vida e as vezes dificilmente experimentava o amor de forma sensível, dado que o amado parecia ter-se desvanecido completamente. E no entanto, quem pode duvidar seriamente que esta mulher amou o Senhor até ao extremo? Há dois anos, nos Estados Unidos uma mãe perdoou publicamente ao assassino do seu filho. Tinha sentimentos de amor para com este? Provavelmente não. Mas soube pôr de lado o rancor e fazer o bem a este homem, liberando-o de um terrível peso.
Agora, também devemos dizer que não basta fazer exteriormente a vontade de Deus, vivendo para com ele uma espécie de obediência militar, que pode seguir escrupulosamente as instruções dadas e no entanto ter verdadeira aversão a quem lhe dá ordens. Quem ama Deus busca pôr todo o coração ao seu serviço, senão será aparentemente fiel mas permanecerá com um coração de pedra. E se não sentimos nada, como podemos pôr todo o meu coração? Não precisamos sentir para pôr todo o coração. Basta querê-lo. Basta dizer sinceramente ao Senhor: “Deus, quero que tudo o que faça seja realmente por ti”. Por isso, a quem perguntava a São João da Cruz como podia amar, este respondia com a maior simplicidade: “põe amor”. Não existe mais ciência que esta. Num oceano de sentimentos de rancor, pode-se amar com grandíssima força o inimigo, assim como num oceano de sentimentos aparentemente de amor, podemos servir-nos dos outros como se fossem meros objectos. A vida normalmente vai revelando a sinceridade do amor, e os sentimentos mais doces podem ir transformando-se em tédio e irritação, assim como os sentimentos inicialmente negativos vão pouco a pouco suavizando-se para finalmente desaparecer em quem busca abrir-se aos outros.
Nesse trabalho, a nossa bússola é sempre o Senhor. Quem aprende a contemplá-lo na oração, a pousar os olhos repetidamente no seu exemplo de pobreza, de humildade, vai abrindo o coração. É impossível que isso não suceda. Um coração morto para o amor, quando se põe diante de um Deus que se dá com tanto desinteresse não pode não reagir. Mesmo se não sentir nada das primeiras vezes, mesmo se não derramar lágrimas de arrependimento, algo actuou em profundidade, e talvez precisamente porque foi tão profunda e tão importante esta acção espiritual, não se sente nada. Mas para que não pensemos que o amor é miséria e leva à destruição de si mesmo, devemos também elevar os olhos do espírito até à segunda vinda gloriosa de Cristo, onde resplandece toda a força do amor.
Quem ama será um dia como Ele, mais brilhante que as estrelas. Quem se deu sem esperar recompensas e talvez tendo sido vítima de muitos vexames receberá a grande recompensa. Comparado com tal majestade futura as coisas deste mundo são pouca coisa: “as forças celestes serão abaladas”, diz o Evangelho. Os “homens-estrela” do nosso mundo deixarão de brilhar, se no seu coração não havia luz. Porque no fundo é isso que aparecerá no novo mundo: o nosso coração que ninguém podia observar, mas que Deus sempre tinha diante dos olhos. Isso também nos mostra que a indigência do amor nesta vida é mais forte, potente e estável que o que existe de mais estável e aparatoso no nosso universo. Aprendamos, pois a educar os olhos do coração para que saiba discernir, a mirada fixa no Senhor, o que realmente conta e o que é palha levada pelo vento. Que este seja o nosso exercício neste advento.
LEITURA I
1 Reis 17, 10-16Leitura do Primeiro Livro dos Reis
Homilia do Pe Antoine Coelho, LC
Domingo de Todos os Santos
Este domingo, celebramos o dia de Todos os Santos. É uma festa importante no nosso calendário, pois nos mostra as grandes vitórias do homem quando está unido a Deus. Melhor ainda: quando deixa Deus actuar nele. Por isso, sempre que lemos a vida de um santo sentimos algo rejuvenescer e entusiasmar-se em nós. Recordemos o que exclamou S. Edith Stein então judia agnóstica quando leu as “Moradas” de Santa Teresa de Ávila: “isso é a verdade!” Sim, a beleza e a autenticidade da vida dos santos mostra-nos claramente que eles viveram em Cristo uma verdade diante da qual todas as outras desvanecem.
Mas vejamos o que nos dizem as leituras deste domingo ao respeito dos santos. A primeira, pertencente ao livro do Apocalipse, conta-nos uma visão extraordinária de São João: “Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar,de todas as nações, tribos, povos e línguas”.
A santidade é para muitos. De facto, é para todos no plano de Deus. Toda a diversidade entra no número dos santos, todos os feitios, condições sociais, raças, povos e línguas. Ninguém pode pensar que não tem nem as capacidades nem as forças para pertencer a este número. Houve santos que eram neuróticos, e que nunca se curaram totalmente…O outro dia, assistíamos à canonização de São Damião de Molokai. Que acessos de cólera tinha às vezes! Não tinha o coração manso e humilde de Cristo, mas pouco a pouco o foi formando, sem perder a esperança. Por isso, creio que dos pensamentos mais perniciosos para o homem é esta subtil e quase invisível forma de desespero que nos leva a pensar que não podemos ser santos. Se dependesse somente das nossas forças, teríamos razão, mas não é isso. É sobre tudo uma obra de Deus em nós, em profundezas do nosso coração que escapam a toda intervenção humana. A nossa tarefa é ir progressivamente abrindo a alma a Deus para que ele a possa purificar.
Todos podemos ser santos porque Deus se adapta a cada um e a cada um leva por um caminho muito pessoal. Se São Paulo pôde dizer de si mesmo “fiz-me todo a todos para ganhar o maior número para Cristo”, com maior razão Cristo. Cristo é o caminho, diz o Evangelho de São João. É o único caminho até ao Pai, de facto, mas é um caminho que se adapta a cada homem. Não para lhe tornar a vida fácil e cómoda. Deus quer que todos subamos ao cume do Everest! Não querer o melhor de quem se ama, é amar pouco. Mas, ao mesmo tempo, ao ser por amor que nos quer nas alturas, pede a cada um o que este pode dar em cada jornada.
Mas podemos pensar também que isso da santidade são beatices, que é coisa de homens que não sabem ser nobres e grandes por si mesmos e precisam de se refugiarem num hipotético Deus, que lhes dá a segurança que não são capazes de adquirir por si mesmo. Mas consideremos de novo o livro do apocalipse, ao respeito dos santos: “São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro”, ou seja de Cristo. Além disso, “são também os que estão “de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro”.
São os que estão pé porque viveram realmente de pé, como homens, no meio de muitas tentações onde certamente o mais fácil teria sido pôr entre parêntesis a sua dignidade e a sua consciência. O santo é assim o mais humano dos homens, é o homem que mais se aproxima do que Deus pensou para ele. Mas subir a este nível exige coragem.
Existe, de facto, uma coragem própria da santidade que é muito mais profunda e radical que as “coragens” do mundo que povoam os nossos ecrãs de televisão ou livros de história. Não todos temos os nervos, a energia interior, a estrutura física e psicológica para realizar grandes façanhas, ao modo como as pintam os livros de aventuras. Tenho um amigo que se dedica a atravessar em solitário o oceano Atlântico. Contou-me todos os sacrifícios que tinha que realizar durante a travessia, contou-me as vezes em que se encontrou entre ondas colossais e conseguiu manter a calma necessária para uma luta de horas contra os elementos…Pensei: “isso não é para mim!”
Mas todos temos tudo o que é necessário para realizar a maior das façanhas: a santidade. E o que é o necessário para isso? Deus, só Deus é necessário. O sangue do Cordeiro, na qual devemos branquear as nossas túnicas. Mas da nossa parte, não é necessário algo? Sim, algo básico e elementar. Aceitar um caminho espiritual com Cristo, andando detrás de Ele e perseverando com Ele. Um caminho muito pessoal, intransferível, uma história única entre Deus e a alma. E onde nos leva tudo isso? A emergir-se no sangue do cordeiro, a compartilhar a experiência de Cristo. A verdadeira coragem é abandonar-se a si mesmo para se reencontrar a si mesmo infinitamente mais enriquecido em Deus.
Neste caminho espiritual com Cristo há momentos muito escuros. Mas eu prefiro infinitamente passar por momentos escuros e brilhar interiormente com esta certeza de que estou a seguir o que é justo e bom, prefiro isso a ter a escuridão “dentro de casa”, na minha alma, porque me escondo da luz de Deus. Quando tocam estes dias sombrios em companhia de Cristo, parece ressoar aos nossos ouvidos a pergunta que Ele mesmo lançou ao céu enquanto estava pregado à cruz: “Pai porquê me abandonaste?” Experimenta-se então o abandono de todos e de tudo segundo graus e intensidades que Deus vai doseando sabiamente para cada um. É a mesma coisa que experimentou Abraão quando pensou que tinha de oferecer em sacrifício a Deus o seu único filho. É o que sentiu João Paulo II, quando descobriu que padecia da doença de Parkinson. Isso, numa época em que a Igreja necessitava de modo especial de um Papa activo, forte e enérgico, alguém que nos pudesse galvanizar com a força da sua palavra.
Deus permite o crepúsculo das criaturas e dos apoios humanos e materiais, para que entendamos o que verdadeiramente conta: Ele. Cristo mostra-nos de novo como actuar quando exclama, sempre no Calvário e como resposta à sua pergunta anterior: “Pai abandono-te o meu espírito”. Ser santo é isso, é abandonar-se completamente nas mãos de Deus, é pôr nele todas as seguranças, todas as aspirações. Quando tudo parece absurdo na vida ao ponto que até o suicídio parece fazer sentido, a única resposta é o abandono. Ao mesmo tempo, é a resposta fecunda por excelência, porque quando o homem se abandona a Deus, faz entrar precisamente Deus em cena. O homem criado a imagem de Deus torna-se então uma janela transparente por onde irradia com força irresistível o Deus que o seu denso egoísmo escondia.
Mas ao mesmo tempo isso é ser feliz. Aqui finalmente chegamos ao Evangelho deste domingo que nos recorda que os bem-aventurados não são os que têm coisas, mas os pobres, porque deram tudo, abandonaram tudo aos outros. Não são os que dominam a terra, mas os que se deixaram dominar pelo amor de Deus, sendo humildes. Não são os que buscam todo tipo de consolações humanas e materiais, mas os que sabem chorar pelos outros, tomar o seu sofrimento, para ajudá-los, como Cristo na cruz. Não são os que saciam os seus olhos com todo tipo de imagens, mas os que limpam pela pureza de vida o olho da fé, de modo que ele possa descobrir o esplendor de Deus até nas coisas mais humildes do mundo. A lista poderia continuar.
Mas o que é certo é que aqui nos deparamos com o grande paradoxo cristão de que já falámos antes. É quando sabemos prescindir que tocamos Deus e que a nossa alma se enche de uma felicidade tão profunda quanto incomparavelmente superior a tudo o que temos neste mundo. Mas não só isso, goza-se das coisas do mundo com novo sabor, tudo parece brilhar com cores mais vivas. Com efeito, nada desaparece em Deus. Saber amar as coisas e as pessoas em Deus é descobri-las em toda a sua estatura. Por isso prescindir de si mesmo por Deus é reencontrar-se mais profundamente a si mesmo.
Por fim termino com a segunda leitura, a carta de São João. Somos já filhos de Deus, mas “ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus porque O veremos tal como Ele é”. Como agradeceremos então todas as nossas obras nesta terra que nos tornaram mais e mais semelhantes a Deus!!! Os sorrisos, os gestos de bondade, o tempo dedicado aos outros, todas as vezes que falámos de Cristo, as tentações que rechaçámos com coragem…Estas obras brilharão para sempre. Buscar ser santo é realmente o melhor investimento possível, porque é apostar por aquilo que nunca passará. Muitos fizeram esta aposta e chegaram longe. Porquê eles e não nós? Eram eles mais filhos de Deus que nós?